Doença residual no câncer de mama: o que é e o que esperar do tratamento
Receber o resultado da cirurgia de câncer e descobrir que ainda existem células tumorais no corpo pode ser uma notícia difícil. Aqui, a sensação pode até ser a de que o tratamento “falhou” – e, apesar dessa leitura ser compreensível, isso não é real. A presença da doença residual no câncer de mama não é um fracasso, mas sim um sinal de que o organismo respondeu à terapia, e que o próximo passo requer adaptação.
Nos últimos anos, a oncologia evoluiu significativamente nesse campo. Hoje, há opções terapêuticas específicas para cada perfil de tumor residual e, com isso, o prognóstico do câncer de mama que tem essa característica melhorou bastante. Entenda abaixo o que é a doença residual e quais são as possíveis saídas:
Doença residual no câncer de mama: o que é, como se identifica e mais
Para entender o conceito de doença residual, é preciso entender primeiro como funciona a neoadjuvância no câncer de mama, ou seja, o tratamento que ocorre antes da cirurgia. Esse tratamento (que pode envolver quimioterapia, terapia-alvo ou hormonioterapia) visa reduzir e enfraquecer o tumor – e, no procedimento cirúrgico, médicos retiram a área onde ele costumava estar.
Após a cirurgia, o material passa por análises. Aqui, se espera que ele não tenha células cancerígenas ativas, sinal de que o tratamento prévio agiu como esperado (resposta patológica completa). Quando ainda há células vivas nesse tecido, porém, estamos diante da doença residual, ou seja: um câncer que sobreviveu ao tratamento pré-operatório.
O que a doença residual indica
A presença de um tumor residual traz uma informação biológica importante sobre ele: as células restantes são resistentes à terapia recebida. A presença desse quadro indica maior risco de recidiva do câncer, e as chances disso ocorrer variam de acordo com características do tumor, como subtipo, volume da doença residual, entre outros fatores.
Esse resultado, embora possa gerar apreensão, traz informações muito importantes sobre o comportamento do tumor. Quando ainda há doença após o tratamento inicial, entendemos que aquela biologia tumoral pode ser mais agressiva ou menos responsiva ao tratamento utilizado até então.
Isso nos orienta em dois pontos fundamentais: por um lado, não faz sentido manter exatamente a mesma estratégia, já que ela não foi suficiente para eliminar todas as células tumorais. Por outro, também não é adequado simplesmente não fazer nada, porque a presença de doença residual pode indicar maior risco de recidiva, tanto local quanto à distância.
A partir dessa leitura, o oncologista consegue ajustar o tratamento de forma mais precisa, indicando terapias adjuvantes — ou seja, após a cirurgia — com medicamentos diferentes dos utilizados anteriormente. O objetivo é justamente aumentar as chances de controle da doença no longo prazo e reduzir o risco de retorno.
Próximos passos: medicina de precisão e tratamentos complementares
A oncologia moderna tem respostas concretas para a doença residual: o tratamento complementar para câncer, chamado de adjuvância. Nesse contexto, existem diversas opções, e a escolha da melhor depende diretamente de um estudo detalhado do tumor.
O médico precisa conhecer, por exemplo, qual é o subtipo do câncer de mama daquela paciente, bem como o volume da doença residual e as características moleculares das células que sobreviveram. Esse estudo é um dos princípios da **medicina de precisão para o câncer**, que possibilita entender a quais abordagens tendem a ser mais eficazes.
A evolução das pesquisas nessa área tem sido rápida. Atualmente, existem opções que não existiam dez anos atrás, e os estudos em andamento continuam ampliando esse arsenal. Sendo assim, uma paciente com doença residual tem, sim, opções – e elas são extremamente personalizadas.
Opções de tratamento para doença residual
Os principais tratamentos disponíveis, conforme o perfil do tumor, são:
Trastuzumabe emtansina (T-DM1) ou Trastuzumabe deruxtecan (TDX-d)
Ideal para tumores HER2 positivos, esse conjugado de anticorpo e medicamento combina um agente anti-HER2 com quimioterapia diretamente nas células tumorais. Isso reduz o risco de recidiva ou morte em 50% em comparação com a terapia padrão.
Capecitabina
Ideal para tumores triplo-negativos, essa quimioterapia oral demonstrou melhora significativa na sobrevida livre da doença em pacientes com doença residual após quimioterapia neoadjuvante.
Olaparibe
Ideal para pacientes com mutação germinativa nos genes BRCA1 ou BRCA2, esse inibidor de PARP (enzima presente nas células do corpo) atua impedindo que células cancerígenas reparem seu DNA.
Abemaciclibe ou Ribociclibe
Ideal para tumores com receptor hormonal positivo e HER2-negativo de alto risco, esse medicamento oral bloqueia proteínas responsáveis pela divisão descontrolada das células tumorais, reduzindo o risco de recidiva.
Pembrolizumabe
Nos tumores triplo-negativos, especialmente quando já houve uso de imunoterapia antes da cirurgia, o pembrolizumabe pode ser mantido no tratamento após a cirurgia, mesmo na presença de doença residual.
Esse medicamento atua estimulando o sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais. Estudos mostram que a continuidade do pembrolizumabe nesse cenário contribui para reduzir o risco de recidiva e melhorar os desfechos a longo prazo.
A decisão de manter a imunoterapia depende do tratamento realizado anteriormente e das características individuais de cada caso, reforçando a importância de um plano terapêutico personalizado.
Hormonioterapia complementar
Ideal para tumores com receptores hormonais, essa terapia costuma ser combinada a outras abordagens e é um tratamento por via oral que dura de cinco a dez anos.
Radioterapia
O tratamento com radiação pode ser uma opção em casos de doença localmente disseminada.
Acompanhamento pós-neoadjuvância: o papel do oncologista
O período após o diagnóstico de doença residual exige acompanhamento oncológico próximo e estruturado. Aqui, definir o melhor tratamento complementar, monitorar a resposta ao tratamento do câncer de mama, ajustar condutas conforme a tolerância da paciente e manter vigilância para sinais precoces de recidiva fazem parte de um cuidado essencial.
Se você recebeu esse diagnóstico e quer entender suas opções com clareza, agende uma consulta com um especialista na doença que também entenda de medicina de precisão. Aqui, cada caso tem uma resposta única, e meu papel é encontrá-la junto com você.
Juliana Beal, especialista em oncologia clínica e câncer de mama em São Paulo
Juliana Beal, oncologista focada em câncer de mama em São Paulo clínica com atuação no Einstein Hospital Israelita, se dedica ao diagnóstico e tratamento do câncer de mama com foco em medicina de precisão. Ela acompanha pacientes em todas as fases da doença, incluindo a definição de estratégias pós-neoadjuvantes para casos com doença residual. Busca oferecer um tratamento oncológico em SP que seja humanizado, individualizado e alinhado com o que há de mais moderno.
Mais sobre a doença residual no câncer de mama
Doença residual é a presença de células tumorais vivas no tecido removido na cirurgia mesmo após um tratamento pré-operatório (neoadjuvante). Ela indica que o tumor respondeu parcialmente à terapia, e que existem células resistentes. Por esse motivo, o diagnóstico requer uma nova abordagem terapêutica – desta vez mais personalizada com base nas características específicas do tumor.
Existe uma associação entre a doença residual e um risco maior de recidiva do câncer, mas o prognóstico depende de muitos fatores, e definitivamente melhorou muito com as terapias modernas disponíveis atualmente para esse contexto. Portanto, receber esse diagnóstico não significa que não há o que fazer, mas sim que existe um caminho terapêutico específico a seguir.
Os próximos passos dependem do subtipo do tumor. É necessário avaliar se ele tem receptores hormonais, se ele expressa a proteína HER2, se é triplo-negativo, entre outras características. Cada cenário responde melhor a determinada abordagem – e, após esse estudo, um novo tratamento acontece. A decisão é sempre individualizada.


