Hiperplasia ductal atípica: é câncer? Qual o risco e o que fazer?
Receber um laudo com o termo “hiperplasia ductal atípica” gera apreensão, e a palavra “atípica” pode soar como um alerta. Nesse contexto, é importante entender antes de tudo que a hiperplasia ductal atípica não é câncer. Trata-se de uma alteração benigna do tecido mamário – mas que ainda assim merece atenção, investigação e acompanhamento.
Entenda abaixo o que é a hiperplasia atípica da mama, como é o diagnóstico, qual o risco real que ela representa e quais os próximos passos após receber esse laudo:
Hiperplasia ductal atípica: o que é, diferenças para outras hiperplasias e mais
A mama tem duas estruturas principais onde o tecido glandular se organiza: os ductos (pequenos canais que conduzem o leite até o mamilo) e os lóbulos (glândulas responsáveis pela produção de leite). Normalmente, essas estruturas têm duas camadas de células, mas, quando elas se multiplicam além da quantidade habitual e ultrapassam esse padrão, existe o diagnóstico de hiperplasia.
Quando se fala em hiperplasia, porém, é importante entender que há mais de um tipo, e eles se diferenciam por suas características. No caso da hiperplasia ductal atípica (HDA, ou ADH na sigla do termo em inglês), esse crescimento fora do padrão acontece nos ductos da mama, e tem particularidades diferentes de casos de hiperplasia ductal usual (HDU) e do carcinoma ductal in situ (DCIS).
HDA, hiperplasia usual e DCIS: diferenças
Cada um desses diagnósticos indica um cenário diferente dentro do ducto mamário, e eles se diferenciam especialmente pelo quanto as células estão alteradas, além de como elas ocupam o espaço. Entenda as diferenças:
Hiperplasia ductal usual (HDU)
Nesse diagnóstico, as células se multiplicam além do habitual, mas se mantêm parecidas com as saudáveis e seguem organizadas de forma relativamente normal. Por isso, esse achado não exige tratamento, e causa apenas uma elevação discreta do risco de câncer de mama.
Hiperplasia ductal atípica (HDA)
Aqui, além das células se multiplicarem, a aparência delas é mais diferenciada da de células saudáveis, e elas crescem em um padrão mais desorganizado. Esse diagnóstico apresenta algumas características do carcinoma ductal in situ (que é câncer), mas não todas – e é justamente por isso que não se trata de um quadro maligno.
Ainda que seja uma alteração benigna, porém, a HDA é uma lesão de risco da mama, porque aumenta significativamente o risco do desenvolvimento de câncer. Além disso, é sempre importante investigá-la com afinco, visto que a diferenciação entre HDA e câncer de mama ductal em estágio inicial pode ser discreta.
Carcinoma ductal in situ (DCIS)
Já nesse caso, as células têm características de câncer, mas permanecem confinadas no interior do ducto, sem invadir o tecido mamário ao redor. É daí que vem o “in situ” do nome, que aponta para um carcinoma localizado, e não disseminado. Quadros assim são classificados como câncer de mama em estágio inicial (0).
Diagnóstico de HDA
A hiperplasia ductal atípica raramente causa sintomas ou um caroço palpável na mama. Isso porque as alterações celulares que definem esse quadro acontecem em escala microscópica, sem formar massas sensíveis ao toque. Sendo assim, na maioria das vezes, o diagnóstico vem por outro caminho.
A situação mais comum é descobrir a condição na mamografia, que identifica calcificações na mama e outras características anormais que pedem investigação. A partir disso, o médico solicita a biópsia da mama, na qual se retira o tecido suspeito para análise. Nessa análise, é possível entender o nível de anormalidade das células que compõem esse tecido, chegando assim ao diagnóstico de HDU, HDA ou câncer.
HDA e câncer de mama: riscos e curso de ação
O risco de câncer associado à hiperplasia ductal atípica é de 4 a 5 vezes maior do que o de mulheres que não têm essa alteração. Aqui, é importante frisar que esse dado indica uma possibilidade maior de ter a doença – e não a certeza de que um dia ela existirá. Nesse contexto, a maioria das mulheres com HDA nunca chega a desenvolver o câncer.
Vale entender também que esse fator é apenas um dos capazes de aumentar o risco de câncer de mama. Esse risco é maior ainda, por exemplo, quando além da HDA, a paciente tem também histórico familiar de câncer de mama em parentes de primeiro grau ou com mutações genéticas conhecidas, como BRCA1 e BRCA2.
Sendo assim, o curso de ação após o diagnóstico de HDA depende de uma avaliação completa da paciente e de todos os fatores de risco envolvidos. Em alguns casos, se o risco é muito alto, vale entrar em um protocolo preventivo.
Acompanhamento e redução de risco
Como a hiperplasia ductal atípica não é câncer, os cuidados não são os mesmos que os do tratamento de câncer. Aqui, o foco está em vigiar o caso de perto e com consistência, tomando medidas que amenizem ou eliminem certos fatores de risco para o câncer.
Assim, as estratégias de tratamento da hiperplasia ductal atípica podem incluir:
- Exame clínico das mamas e mamografia a cada 6 meses ou 1 ano, dependendo do caso;
- Ressonância magnética das mamas em casos selecionados;
- Manutenção do peso saudável e da prática regular de atividades físicas;
- Redução do consumo de álcool;
- Quimioprofilaxia com tamoxifeno ou inibidores de aromatase (IA).
Nesse contexto, a quimioprofilaxia merece atenção especial. Isso porque ela utiliza medicamentos que também podem aparecer no tratamento do câncer de mama, mas com o objetivo preventivo de reduzir as chances da doença chegar. Sendo assim, a indicação depende muito do perfil de risco individual e exige uma discussão cuidadosa entre a paciente e sua equipe médica, já que os medicamentos podem trazer efeitos colaterais durante o uso prolongado.
No vídeo abaixo, explico mais detalhes de quais são os fatores de risco evitáveis do câncer de mama e como minimizá-los:
Quando operar
A necessidade de cirurgia para hiperplasia ductal atípica depende de como a biópsia aconteceu. Quando a biópsia é feita por agulha, a conduta habitual é, depois, remover mais tecido da área ao redor, em um procedimento chamado exérese. Aqui, o objetivo não é tratar a HDA, mas confirmar que não existe nada mais grave nas proximidades que pode ter “escapado” da mira da agulha.
Já quando o diagnóstico vem de uma biópsia excisional (aquela que já remove cirurgicamente uma área maior do tecido) e o laudo aponta HDA sem outros comprometimentos, geralmente não existe a necessidade de fazer uma nova intervenção. Cada caso, no entanto, tem suas particularidades, e essa decisão sempre deve partir de uma avaliação conjunta entre o oncologista e o cirurgião.
Se você recebeu esse diagnóstico e quer entender qual é o caminho mais adequado e cauteloso para o seu caso, não deixe de agendar uma consulta com um oncologista clínico especialista em mama. Aqui, a avaliação individualizada do risco é parte central do acompanhamento que ofereço a cada paciente.
Dra. Juliana Beal: oncologista especialista em câncer de mama em São Paulo
A Dra. Juliana Beal, médica com atuação no Hospital Israelita Albert Einstein, é oncologista especialista em câncer de mama em São Paulo, com foco em medicina de precisão e na avaliação individualizada do risco mamário.
Nos atendimentos, ela acompanha pacientes que buscam orientação após alterações em exames ou diagnósticos mamários. Isso vale para todas as fases do cuidado, sempre com abordagem humanizada e baseada nas evidências mais atuais da oncologia.
Mais sobre hiperplasia ductal atípica
A HDA não é câncer e nem uma lesão pré-cancerosa, mas eleva o risco da paciente desenvolver câncer de mama ao longo da vida. Aqui, vale frisar que a maioria das mulheres com HDA nunca desenvolve a doença – mas o risco não pode ser deixado de lado, e isso faz o acompanhamento próximo ser extremamente necessário.
Quando o diagnóstico vem de uma biópsia por agulha, pode ser necessário realizar outro procedimento para remover mais tecido da mesma região. Isso serve para descartar qualquer outro diagnóstico nas proximidades. Já quando o diagnóstico vem de uma biópsia excisional, geralmente não há necessidade de um novo procedimento, mas a decisão sobre isso é sempre individualizada.
Sim, o diagnóstico de hiperplasia atípica da mama indica a necessidade de acompanhamento mais frequente do que no rastreamento padrão para câncer. Isso costuma incluir o exame clínico e a mamografia a cada 6 meses ou 1 ano, além de ressonância magnética das mamas em alguns casos. O protocolo exato depende da avaliação do perfil de risco individual de cada paciente.


