É possível evitar o câncer de mama? Entenda os fatores de risco modificáveis
Afinal, tem como prevenir o câncer de mama? A resposta honesta começa com uma distinção importante: a prevenção absoluta não existe. Isso porque o câncer de mama é uma doença multifatorial, e parte dos casos surge em mulheres sem nenhum fator de risco identificável.
Há, porém, fatores de risco universais que contribuem para o surgimento da doença – e estudos estimam que até 30% dos casos poderiam ser evitados com mudanças de hábitos. Entenda abaixo quais são os principais fatores de risco para câncer de mama que podemos modificar no dia a dia e quais hábitos saudáveis ajudam a prevenir câncer.
Fatores de risco modificáveis para o câncer de mama
No contexto de fatores de risco para a doença, vale considerar a divisão entre os modificáveis e os não modificáveis. Estes últimos não dependem de escolha e incluem, por exemplo, idade, histórico familiar e genética. Já os primeiros têm relação com o estilo de vida e com decisões que podem ser revistas.
Agir sobre os fatores modificáveis não é garantia de que a doença não ocorrerá, mas isso reduz substancialmente o risco de câncer de mama – um objetivo concreto, alcançável e que têm respaldo de evidências robustas.
Entenda abaixo quais são os principais:
Excesso de peso e obesidade
O tecido adiposo (ou seja, a gordura corporal) não funciona apenas como uma reserva de energia. Ele também participa da produção de hormônios. Nas mulheres após a menopausa, por exemplo, a gordura passa a ser a principal fonte de estrogênio do organismo.
Isso acontece porque as células de gordura contêm uma enzima chamada aromatase, responsável por converter substâncias derivadas do colesterol em estrogênio. Assim, quanto maior a quantidade de tecido adiposo, maior tende a ser a produção desse hormônio. Como alguns tipos de câncer de mama utilizam o estrogênio como estímulo para crescer, a exposição prolongada a níveis mais elevados pode contribuir para o desenvolvimento da doença.
Esse risco é especialmente relevante na pós-menopausa, quando os ovários deixam de ser a principal fonte de estrogênio e o tecido adiposo assume esse papel. Dessa forma, o ganho de peso na vida adulta e a obesidade pós-menopausa estão entre os fatores modificáveis com a maior evidência de associação com a doença.
Consumo exacerbado de álcool
A relação entre álcool e câncer de mama envolve diferentes mecanismos biológicos. O consumo de bebidas alcoólicas pode aumentar os níveis circulantes de estrogênio, estimulando a proliferação das células mamárias. Além disso, durante o metabolismo do álcool, são produzidas substâncias capazes de causar danos diretos ao DNA e dificultar seu reparo. Esses mecanismos atuam de forma complementar, contribuindo para o aumento do risco de desenvolvimento do câncer de mama.
Diferentemente de outros fatores, aqui não existe um limiar seguro, e mesmo o consumo moderado de álcool já tem ligação a um aumento mensurável do risco. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o álcool tenha sido responsável por mais de 100 mil novos casos de câncer de mama no mundo em 2020, número expressivo para um fator completamente evitável.
Sedentarismo
A falta de atividade física é um fator de risco para o câncer de mama, mesmo que a pessoa não ganhe peso por conta do sedentarismo. Isso porque a atividade física regular balanceia os níveis hormonais, reduz a inflamação crônica e melhora a sensibilidade à insulina, todos mecanismos que influenciam o ambiente em que um tumor pode crescer.
Nesse contexto, mulheres sedentárias têm risco significativamente maior de desenvolver câncer de mama em comparação com as que se mantêm ativas, independentemente do peso corporal.
Terapia hormonal na menopausa
O uso combinado de estrogênio e progesterona na pós-menopausa está ligado a um aumento no risco de câncer de mama, especialmente quando o uso é prolongado. Essa relação é mais bem estabelecida quando se fala em terapia combinada do que para o estrogênio isolado.
Isso, porém, não significa que a terapia hormonal deve ser descartada. Para algumas mulheres, os benefícios do controle dos sintomas da menopausa superam os riscos – mas essa decisão precisa de avaliação individualizada com o médico responsável, levando em conta o histórico clínico e o tempo de uso.
No vídeo abaixo, explico em mais detalhes sobre a relação entre reposição hormonal e o risco de câncer de mama:
Tabagismo
O tabagismo é um fator de risco ainda subestimado no contexto do câncer de mama. As substâncias carcinogênicas do cigarro chegam ao tecido mamário pela circulação sanguínea e podem causar mutações no DNA das células. Essa associação é mais consistente em mulheres que começaram a fumar cedo, antes da primeira gestação, e naquelas com histórico de tabagismo prolongado e intenso.
Sendo assim, parar de fumar é uma ação de grande impacto sobre o risco oncológico de forma geral.
Histórico reprodutivo e hormonal
A exposição acumulada ao estrogênio ao longo da vida influencia diretamente o risco de câncer de mama. Quanto mais tempo o organismo fica sob ação intensa desse hormônio, maior a probabilidade de alterações no tecido mamário. Nesse sentido, alguns aspectos do histórico hormonal e reprodutivo figuram como fatores de risco total ou parcialmente modificáveis.
Ter a primeira gestação após os 30 anos, nunca ter amamentado e usar anticoncepcionais hormonais de alta dose por um período prolongado, por exemplo, aumentam a exposição acumulada ao estrogênio. A amamentação, por outro lado, reduz essa exposição e tem efeito protetor, especialmente quando mantida por um período longo.
Hábitos protetores
Aqui, a boa notícia é que é possível evitar os fatores de risco acima com alguns hábitos que protegem. Os principais, com evidência científica consolidada, incluem:
- Atividade física regular: a relação entre exercício físico e câncer de mama no quesito prevenção é bem estabelecida, e 150 minutos de atividade moderada por semana é o ideal;
- Controle de peso: especialmente na vida adulta e após a menopausa;
- Redução ou eliminação do consumo de álcool: qualquer redução disso já tem impacto grande sobre o risco;
- Amamentação: especialmente por períodos superiores a 12 meses ao longo da vida;
- Não fumar, ou parar o quanto antes;
- Rastreamento regular: os exames não previnem o surgimento do tumor, mas garante que ele seja encontrado o quanto antes para tornar o tratamento de câncer de mama mais eficaz.
O que a prevenção não consegue controlar
Nem todo caso de câncer de mama tem uma causa identificável. Aqui, idade, histórico familiar da doença, mutações genéticas (como BRCA1 e BRCA2) e densidade mamária maior são fatores que não dependem de escolha.
É nesse contexto que entra o rastreamento do câncer de mama. Enquanto a prevenção envolve mudar hábitos, o rastreamento envolve realizar exames periódicos que permitem a identificação de tumores em paralelo. O rastreamento não previne o surgimento da doença, mas ajuda a identificá-la em estágios mais iniciais – e, assim, as duas estratégias se complementam.
Se você tem dúvidas sobre qual protocolo de rastreamento faz mais sentido para seu perfil ou quer conversar sobre seus fatores de risco individuais, agende uma consulta!
Dra. Juliana Beal – oncologista especialista em câncer de mama em São Paulo
Juliana Beal é oncologista clínica e especialista em câncer de mama em São Paulo. Ela atua no Einstein Hospital Israelita com foco no diagnóstico, no tratamento e na prevenção do câncer de mama em SP. Referência como especialista em mama em São Paulo, ela acompanha pacientes em todas as fases da doença, desde o rastreamento até o tratamento, com cuidado individualizado e aplicação da medicina de precisão.
Mais sobre como prevenir o câncer de mama
Não existe prevenção absoluta, pois o câncer de mama é multifatorial, e parte dos casos não vem de fatores de risco identificáveis. O que é possível (e comprovado pela ciência) é reduzir o risco por meio de mudanças que eliminam ou amenizam fatores de risco como obesidade, consumo de álcool e tabagismo.
Assim, a prevenção do câncer de mama inclui hábitos como prática regular de exercícios físicos, controle de peso, suspensão do consumo de álcool e do tabagismo, além de avaliação de risco antes do início de terapias hormonais.
Os fatores modificáveis com maior evidência de associação incluem: excesso de peso e obesidade (especialmente na pós-menopausa), consumo de álcool, sedentarismo, uso prolongado de terapia hormonal combinada na menopausa, tabagismo e menor tempo amamentando. Além deles, fatores não modificáveis incluem idade avançada, histórico familiar e mutações genéticas.
As ações com mais evidências de impacto incluem praticar atividade física regularmente, manter um peso saudável, reduzir ou eliminar o consumo de álcool, amamentar por um período maior, não fumar e discutir com o médico o uso de hormônios antes de iniciá-los. Além disso, manter o rastreamento em dia é indispensável mesmo para mulheres sem fatores de risco conhecidos.


